Previsibilidade

8 de fevereiro de 2011 by

Vou fazer uma introdução bem chata, mas depois o texto vai ficar legal (vejam: não estou prometendo nada).

 

Sou formada em Relações Internacionais (parabéns, jovem). Na faculdade, eu ouvi umas quinhnentas vezes a frase “as RI se caracterizam pela falta de clareza, incerteza da ação do próximo e imprevisibilidade dos atores”. Algumas vezes, isso veio acompanhado por “mas esta imprevisibilidade pode ser reduzida”. E outras poucas vezes, ainda terminavam com “o que não acontece internamente nos Estados”.

 

Vamos falar sobre a vida dentro dos Estados (a minha, a sua, a do Eike Batista, da Suzana Vieira e da Paris Hilton). Se o mundo fosse como está nas teorias que eu “estudei” (lia um texto e ia pra aula twittar) nós temos uma base de como as pessoas vão agir por que existem leis e regras implícitas sobre comportamento. Ok.

 

Você, menininha bonitinha: já começou a namorar um cara, fez tudo para ele e descobriu que o seu amorzinho também era o amorzinho da sua colega de turma, da sua vizinha e daquela amiguinha biscate da academia?

 

Você, carinha do sertanejo: já chegou colocou no “sobre mim” do orkut aquela letra “eu já sofri muito por amor e agora eu vou curtir a vida” e quando foi ver, a guria que você saiu três vezes na vida botou o status como “casado” e fotos contigo com a legenda “meu amor” no álbum? Ta, se isso aconteceu, você corre o risco de acordar com seus coelhos mortos.

 

Senhoras e Senhores da turma de 2003, se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro, seria: não confie em ninguém. Confiança é dar a chave para alguém ferrar a sua vida. Ele vai postar suas fotos pelada no Caiu Na Net, ela vai contar para as amigas que você brochou, não deixe o facebook aberto na casa da sua melhor amiga. Em qualquer momento da tua vida, quando alguém disser “confie em mim”, responda com um bom “não”.

 

Qualquer pessoa que jogou GTA sabe que seus amigos mais próximos vão tentar te matar, tomar a sua casa e pegar a sua namorada. E só vão conseguir por que você deixou que eles entrassem pela porta e ficassem sozinhos enquanto você ia matar uns rivais em DownTown.

 

Cada vez que você confia em alguém, o Diabo dá uma cutucada em Deus e diz “shhh, saca só, vamos ferrar a vida desse otário”. Cedo ou tarde os amigos da comissão de formatura vão sacar todo o saldo e ir para a Europa com as tuas custas. A única coisa que você pode fazer é deixar teu dinheiro em uma conta separada.

 

Tudo no meu Sul

16 de dezembro de 2010 by

Oi, este texto é enorme e você não vai ler inteiro. Se ler, vai rir da minha cara. Então, nem leia.

 

Eu resolvi, na metade da faculdade, não ganhar dinheiro e viver de pesquisa. Depois do TCC entregue, respirei fundo e resolvi fazer mestrado, para garantir que eu nunca fique rica. Todas as merdas de 2010 me levaram para que eu me dedicasse ao máximo para a Federal do Rio Grande do Sul, um dos grandes centros de pesquisa emPolítica Internacional do país.

Como a primeira fase da seleção era uma prova em Porto Alegre, e logo em seguida a entrevista, eu programei minha viagem toda certinha para os 5 dias, no máximo, que eu ficaria lá. Fui com o orçamento ultra apertado, mas valia a pena – eu ia passar na seleção, com certeza.

Minha relação com aeroportos é bem complicada. Acho que Hórus (deus dos céus) mão vai com a minha cara, por que sempre dá alguma coisa errada. Fico igual uma maluca atrás de qual portão eu realmente embarco, com a moça falando “voo número tal embarque portão 5”, com o telão mostrando que o embarque é no portão 8, e acabo embarcando no portão 3, o pior do aeroporto de Curitiba, por que tem que pegar ônibus pra ir para o avião, que demora meia hora. Além daquele povo que sabe-se lá o que está fazendo, e as gurias ficam anunciando “senhor fulano, última chamada para embarque”.

Desta vez foi tudo bem, o que me deixou com medo. Se foi tudo bem no aeroporto, alguma coisa me aguarda. Vocês, amigos de fórum, sabiam que a webjet cobra pelo serviço de bordo? Pois é, fiquei sem comer.

Cheguei no Hotel que eu tinha reservado. Como ele era descrito em todos os sites: com 20 quartos, ambiente aconchegante, similar a uma pousada. Cheguei, falei com a velhinha simpática da recepção, que me perguntou se eu ia ficar sozinha no quarto. Achei estranho, mais estranho ainda ter uma tabela com o preço das horas na parede. Achando que eu estava no lugar mais latino do mundo, com paredes rosa, chão vermelho e lustres coloridos, subi as escadas com medo, até chegar ao meu quarto. Amigos, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a música do Zezé di Camargo e Luciano: um abajur cor de carne, um lençol azul, cortinas de seda E EU QUERENDO MORRER. Coloquei a mão por dentro da manga da blusa pra pegar o telefone, que na verdade era apenas um interfone. As paredes e a cama cobertas até a altura da cintura com veludo vermelho, aquela cama simplesmente me dava pavor, e todo o medo de não passar no mestrado culminaram em um choro sem precedentes até então. O nojo que eu senti naquele lugar, pensando que tipo de gente iria até lá pra fazer alguma coisa, me deixava tonta.

“Vou ligar para alguém, vou ligar para o…” não me permiti terminar esse pensamento. Que guria corre para o ex namorado no primeiro sinal de perigo? Pensando como uma boa weberiana, lembrei da Chris, que tinha família lá e contei meu desespero para ela e para a mãe dela, que me indicaram um parente que poderia me ajudar. Meus créditos acabaram, para a alegria geral da nação. Como a Tim tem algumas coisas boas, como a internet que algumas vezes funciona, achei um hotel de verdade com o mesmo preço. Juntei minhas coisas, cheguei ainda chorando na recepção, onde a velhinha viu meu pavor e devolveu o dinheiro da diária, e saí atrás de créditos para o meu celular, pra conseguir me comunicar com o mundo.

Cheguei no mercadinho ao lado do hotel chorando, pedi créditos para o dono e contei do pavor do hotel. O senhor perguntou se me estupraram lá. Pensei que em alguma escala bizarra de Maria do Bairro, eu tive sorte. Não, não me estupraram, nem dirigiram a palavra a mim, acho que graças a Deus. Mas o tio não conseguiu botar créditos, e àquela altura eu já estava chorando e pensando que vida eu escolhi para mim, quando saí com as minhas malas na chuva atrás de um táxi. Entrei no táxi ainda chorando, contei meu drama, falei do outro hotel e perguntei “é um hotel de verdade, né? Não é um outro puteiro?” “não te preocupa, tchê, é um hotel”. Eu falei exatamente nessas palavras, quando me acalmei, finalmente, sabendo que não iam tentar me estuprar no meio da noite.

Peguei o último quarto de solteiro disponível e subi de elevador, que lembrava o do Hotel Stanley (do Filme O Iluminado). O corredor também parecia com o corredor do filme, com papel de parede estranho, lustres circulares com luzes piscantes, com o teto um pouco mofado. Sem gêmeas no corredor, entrei no quarto com a certeza que eu iria morrer de rinite (ou de fome), liguei a cobrar para os meus pais que achavam que eu estava morta. Tirando meu nojinho do cobertor do hotel, até que consegui dormir bem, eu só pensava “eu poderia estar morta em um puteiro”.

Como qualquer pessoa normal, eu amo cafés da manhã de hotéis. Nunca sofri tamanha decepção. O hotel disponibilizava bilhões de tipo de pão (uhul), queijo, presunto, e uma coisas nojentas, como ovo. Sério, se você come ovo frito no café da manhã, morrer de ataque cardíaco é o mínimo que você merece. Não estava ligando muito, afinal, eu ia fazer a prova e ia passar. De lá eu já fui pra UFRGS, onde fiquei quase uma hora no ônibus. Andei o campus todo, onde só se falava do jogo do Inter na terça.

Fiz a prova, achei absurdamente fácil, escrevi quatro folhas frente e verso, saí de lá com a mão assada, mas com a certeza que fiz a melhor prova o possível, e que eu passaria por que era obvio que eu tinha ido bem. Entrei no ônibus toda sorridente, mandando mensagens para as minhas amigas falando “estou viva, não estou num puteiro e acho que fui bem na prova”. Sim, eu coloquei créditos no meu celular, sem choro.

No outro dia, fui naquele café da manhã mais ou menos e um velho nojento ficou olhando para a minha cara. “Legal, ele deve frequentar aquele outro hotel”, pensei. Quando fui falar com o recepcionista, o velho tarado simplesmente tentou puxar assunto comigo. “Tem compromisso agora?” – sério, o que passa na cabeça de um maluco desses? Que eu vou dizer “não, ta afim de fazer alguma”? Falei “tenho” da forma mais mau educada o possível, deixando um senhor e o filho dele, que esperavam pelo pavoroso elevador chegar. Depois de explicar o motivo da minha resposta, eles falaram pra eu não subir para o meu quarto sozinha nunca, pedir sempre pra alguém do staff do hotel ir comigo. “Ótimo, não ta tão melhor que o puteiro”, eu pensei.

Depois fui fazer turismo por Porto Alegre, e vi que o google maps inverteu as direções de todos os caminhos que eu tracei. Não teve um lugar que eu tenha ido sem me perder, e cada pessoa que eu pedia informação falava uma coisa diferente. Consegui chegar aos lugares que eu queria, pelo menos, e fiquei com a testa e o couro cabeludo queimados de sol, que beleza.

Voltei para o hotel pra apertar Reload no celular o resto do fim da tarde. Às 19h saiu o resultado, com um detalhe: meu celular só mostrava metade da página, ou seja, até o G. Desci correndo pro lobby do hotel, onde veio a alegria e felicidade em saber que eu NÃO passei na seleção. Mandei mensagem os meus amigos, de novo, falando que eu não acreditava. Recebi várias respostas no estilo “tem certeza? Não acredito!”. Pois é, não passei! Resolvi juntar as minhas coisas e ir para casa, por que se é pra chorar, que seja na minha cama.

Quando fui acertar com o hotel descobri que depois das 18h se pagava uma diária inteira. Tentei de todo o jeito pedir um desconto, sem chances. Pensei em chamar a gerência, mas o último ônibus pra Curitiba tava quase saindo e era só o que me faltava, ter que ficar em Porto Alegre mais um dia. Como o Inter perdeu, as ruas estavam tomadas por gremistas que, grandes filhos de pessoas que freqüentavam o hotel que eu tinha reservado, buzinavam, gritavam, andavam no meio das ruas. Ótimo.

A guria que estava na minha frente na fila pra comprar passagem disse que ia precisar pagar excesso, e começou a discriminar as vinte (VINTE) malas dela para o único atendente da viação, e estava quase na hora do ônibus sair. Consegui comprar a passagem e entrar no ônibus, pelo menos.

No que sentei, uma velhinha começou a mexer em umas sacolas de plástico. Eu, que já estava até as tampas com toda a situação, não agüentava ouvir o barulho dela. A velhinha que sentou do meu lado era tão curitibana que não pediu nem licença para sentar, nem sequer deu um sorriso quando eu falei boa noite pra ela. Eis que o homem sentado do outro lado do corredor começa a ver um filme sem fones de ouvido. Querendo levantar e mandar todos calarem a boca, fui atrás dos meus fones, pra pelo menos não ouvir aquele povo estressante. Virei minha bolsa, e nada deles. Saí de porto Alegre rezando pra que um raio, um corvo, qualquer coisa acontecesse ao cara que tava vendo filme, enquanto ouvia todos os barulhos de tiros e explosões do filme. Em uma hora, acabou a bateria do notebook dele. Eu, achando que ia ficar em paz, tive que agüentar uma pessoa comer três (sim eu contei) pacotes de ruffles com a boca aberta.

Comecei a tentar abstrair e pensar na merda dos últimos dias e na merda que a minha vida está, e parti para um choro sem fim, que foi entre as 21 e a 1 da manhã, com o cara da ruffles me assistindo enquanto fazia questão de fazer o máximo de barulho o possível. Não era possível eu me ferrar tanto em tão pouco tempo, e simplesmente não tem nada de bom acontecendo em campo algum da minha vida. Dormi e acordei já em Curitiba.

Quando meu pai foi me receber na rodoviária, eu não sei de onde tirei forças para não xingar, acho que foi o sono. Segue a nossa conversa:

-Tudo certo em Porto Alegre?

“Não passei no mestrado e você ainda vem com essa pergunta infeliz, só por que você não quer que eu saia de Curitiba”, eu pensei.

-Tudo.

-Que bom, e que lugares você conheceu lá?

“Oi? Dá pra falar pelo menos um ‘que pena que você não passou’? Nem ‘você logo consegue em outro lugar’? Falsidade pelo menos nesse momento me ajudaria”.

-Pai, acabei de acordar, não to raciocinando direito, depois a gente conversa.

Não preciso falar que ele não fala comigo desde então. Pedir um pouco de falsidade pra fazer com que eu me sinta melhor é exigir muito? Pelo menos disfarça que ficou triste com a minha derrota.

Cheguei em casa as 9 e dormi até as 14h, virei o dia no computador, tentando botar o pensamento em ordem e recebendo algum carinho dos lindos dos meus amigos, que agora só me chamam de Maria do Bairro. Estou esperando a segunda fase da novela, mas acho mais provável que a Soraya me encha de porrada e me mate antes.


A verdade sobre ser mãe

29 de novembro de 2010 by

Estudei minha vida inteira em colégio público, uma experiência na qual as gurias têm sorte de sair sem filhos. E como sempre, quando alguém dá a luz, vão todas as amigas “celebrar”. Não venham me dizer que é uma coisa ótima, isso é pura hipocrisia.

Sempre que eu chego na casa de uma dessas amigas, alguém, mais filho da puta do que eu, tem a audácia de perguntar “e como você está?”. Simplesmente isso não se faz, em visita a mãe alguma. A resposta é sempre algo do tipo “não durmo faz duas semanas, minhas costas doem, meu peito ta em carne viva, a criança só chora, o pai não ajuda em nada, gasto um pacote de fralda por dia, to comprando NAN a 20 reais o pote, MAS ESTOU FELIZ”. Sim, por que este é o conceito de felicidade: estar morta, acabada, sem tempo de fazer um rabo de cavalo, mas com uma pessoa que vai sugar seu dinheiro, energia, planos, amigos e qualquer outro projeto (de ter um cachorro a morar em Paris por um ano) pelas próximas décadas.

Se nós vivêssemos numa sociedade um pouco menos hipócrita, a mãe teria a coragem de falar “Maldito seja o dia que eu disse SIM a esta idéia de jerico!” “não acredito que eu quis economizar dois reais de camisinha” “o filho da mãe não tinha quinze paus pra comprar uma merda de uma pílula”. Mas como ninguém pode segurar o filho e chorar vendo o doutorado em Oxford ir embora, se contentam a dizer que estão felizes. Esta é a mentira que você vai se contar para o resto da vida, quando ouvir sua filhinha balançando o quarto ao lado.

Como vivemos em um mundo absurdamente hipócrita, os pais dizem “ah, eu queria ter aceitado aquele trabalho para cuidar de crianças na África, se não fosse o Júnior. SE EU TIVESSE ESCOLHA, FARIA TUDO IGUAL, mas esperaria um pouco mais”. Está escrito na cara de todos: se tivessem escolha, nunca iam ter essa idéia de preservar espécie, só de treinar, de preferência, com pessoas e em lugares diferentes.

Quando uma das minhas velhas amigas me pergunta por que eu não quero ter filho, eu respondo que não tenho cabeça para isso. Se eu fosse menos hipócrita, dizia “e acabar como você? Jamais!”.

 

Bundões

21 de outubro de 2010 by

Há um tempo atrás a dinâmica entre casais de babacas era simples: um canalha e uma burra. Todo mundo tem aquela amiga que sofre indo de filho da mãe pra filho da mãe, que chora todo sábado à noite se matando em um pote de sorvete. Ou um amigo que tem uma matriz e várias filiais, mas isso é old school.
Agora a moda é um namorado feio, cheio da grana e uma namorada linda, liberal, e… bem, liberal mesmo. Não se fazem mais esposas troféu como antigamente, e o dinheiro não é mais sinônimo de auto estima. Os nerds que há quatro anos atrás eram rejeitados pelas patricinhas têm, de repente, um monte de gurias gatinhas afim. Logo, eles namoram alguma, normalmente a que tem a bunda maior.
Pois é, mas as bundas continuam com o mesmo cérebro de um tempo atrás, e os nerds continuam com a mesma baixa auto estima. Um cara feio com uma mulher bonita faz tudo para manter o relacionamento. Uma bunda pra mostrar para os amigos (ou peitos) é algo de respeito, que deve ser mantido, e isso leva nossos certinhos a esforços astronômicos pra fazer com que o relacionamento dure.
Especialmente sobre outros homens. Um amigo meu, o motivo deste texto ser escrito, disse uma vez que prefere comer brigadeiro com os amigos do que merda sozinho. Seria legal se fosse um relacionamento aberto, onde cada um sabe de si e Deus sabe de todos, mas ela não permite nem que ele tenha amigas mulheres. E ele acha ótimo, afinal tem uma bunda de respeito em casa, mesmo sabendo do que falam dele nas cidades do interior.
Dá pra criticar alguém que acha normal um relacionamento por interesse? Quando se argumenta que a Fulana não está traindo por que o manso sempre soube quem mexeu no seu queijo, o caso está perdido. Um tapa nas costas, um “ok, campeão” e uma olhada desconfiada pra moça pós maquiavélica e a certeza que o sorvete-consolação logo será uma lenda do passado.

O crack do povo

14 de outubro de 2010 by

Eu morro de inveja de quem possui alguma crença, de quem acredita que existe alguma coisa além disso aqui, por que acordar todo dia achando que tudo que você constrói durante a vida vai embora conforme os bichos te comem é desesperador. Mas é diferente acreditar em uma coisa e se cegar por ela.

Uma vez inventaram uma coisa muito legal: o Estado laico. Os governantes, que antes botavam os hereges na fogueira em nome de Deus não podiam mais fazer isso, ou perseguir pessoas em nome da sua religião, ou obrigar puritanos a dançar macarena, embora tudo isso fosse bem maneiro.

Mas a religião não saiu do Estado. Vossa Santidade pedofilica católica tem assento de observador na ONU, mesmo que ninguém dê moral para nenhum dos dois. As bulas papais, além dos títulos honorários da Santa Sé (a Igreja, não a praça) ainda tentam meter o bedelho nos Estados, como aquela tia velha que enche tanto o teu saco que você acaba comprando um cinzeiro pra velha nojenta bater as cinzas de cigarro na sua casa.

Hoje em dia os cristãos têm partidos, brincam de lobby, criam organizações pra defender seus direitos (como se cristãos fossem minoria nesse país) e, igualzinho na época de gritar “bruxa” e dar uma machadada na cabeça de alguém, transformam cultos que deveriam ser religiosos em panfletagem política.

Brincar de “eu que mando nessa porra” ia ser muito legal se isso não fosse o tal do Estado laico. Incrivelmente, para alguns, aqui no Brasil temos islâmicos, judeus, candomblecistas, hinduístas, budistas, ateus e sei lá mais o que. Temos famílias formadas por casais com filhos biológicos, filhos adotivos, filhos de outros casamentos (HEREGES), viúvos, casais que não querem ter filhos (HEREGES!) e casais gays (HEREGES! CORTEM AS CABEÇAS!); brancos, negros, indígenas, orientais e bilhões de misturas que nos dão mulatos de olhos azuis, judeus negros, índios alemães, e mulatinhos com dois pais (HEREGES!).

Quando fazemos leis para beneficiar os pobres, os ricos ficam bravos, mas lá no fundo (eu ainda acredito nisso) sabem que vão ganhar com isso, também. Quando saem leis para beneficiar as crianças, algumas religiões se revoltam, pois algumas ações contra as leis fazem parte de suas culturas, mas engolem. Agora vai dar o mínimo de direito garantido por lei para os homossexuais, como casar, adotar, dar pensão. Nessa hora todo mundo fica bravinho, por que querem beneficiar um grupo em detrimento de toda a sociedade cristã, chocada com essa HERESIA.

Acho interessante como Deus ama a todos, a menos que você seja gay. Ser gay significa que você não é humano, quer dizer que você fez um pacto com o diabo, transa o dia inteiro, tenta arrecadar mais almas para o demônio, logo, você não merece os mesmos direitos do restante da população. A menos que você se converta, tenha dois filhos, uma esposa e seja infeliz.

Se você tem religião, eu tenho inveja de ti, por ser uma pessoa que acredita que tudo pode melhorar, que está tudo nas mãos divinas. Agora, considerar que dar o que é obrigatório pela constituição uma vergonha para a SUA religião, que deve ter SEUS ideais que já dizimaram milhões, ouvidos em detrimento de muitas pessoas que sofrem com o preconceito, me causa é vergonha.

comentários escancarados para todo mundo rir

Futebolização

29 de setembro de 2010 by

Existem coisas que não se faz. Nossas mães nos ensinaram a não cutucar o nariz na frente dos outros, a botar a mão na frente quando espirrar, e a dizer “por favor” e “obrigada” (ou obrigado, caso você seja homem). Mas tem uma coisa que os nossos pais deveriam ter ensinado: não chame amigo que torce pro time rival pra ver jogo com você.

Quem já teve a brilhante idéia sabe o que eu estou falando. Um vê pênalti onde o outro acha que o jogador se jogou, se tira sarro mutuamente quando o time leva um gol, e geralmente o jogo acaba com portas sendo fechadas na cara de alguém. Por que futebol é paixão, é adorar um time sem nenhum motivo contundente, é ser parcial e querer que o outro se dane só por que torce pelo seu rival.

A nossa orientação política devia ser diferente. Com todo o blábláblá e “festa da democracia”, a idéia é que se discutam opiniões, que as idéias conversem entre si, por que quem chegar ao poder vai impactar sobre a vida de todo mundo.

(este parágrafo tem oferecimento do Cap. Óbvio)


Mas o futebol ta há mais tempo nas nossas vidas que a democracia, e não importa que você tenha nascido quando o país já era democrático, você me entendeu. Escolher um candidato é motivo para erguer bandeira, transformar um jantar com os amigos em motivo de brigas intermináveis, gente que ameaça até mudar de país.

Curtir alguma coisa, seja o Corinthians, o PT, o José Serra, maconha ou sexo sadomasoquista é uma coisa tua, que algumas pessoas têm a mesma opinião que você, outras não (direitos autorais cedidos pelo Cap. Óbvio). Mas o fato de uma pessoa torcer pela malvadinha de Malhação não significa que ela te odeia, ou que você deva atear fogo na casa dela (entenderam, psicopatas?).

A maior prova de babaquice que alguém pode dar para os outros é tratar tudo como futebol, responder xingando, brigando e ofendendo outros (ou ofender quem te ofendeu). Não precisa futebolizar a vida, achar que quem pensa diferente de você está te ofendendo. Você não vê jogo com o amigo que torce pelo outro time, assim como você não precisa converter ninguém para a sua posição política, orientação sexual, ou religião (a menos que você seja um padre Jesuíta). Afinal, sua mãe nunca te ensinou que brigar é muito feio?

Separatismo

5 de agosto de 2010 by

Eu estou escrevendo esse texto com muita raiva. Hoje foi divulgada no Terra uma entrevista com um jovem paulistano participante de um movimento social, que se diz contrário ao aprendizado, em escolas de São Paulo, da cultura nordestina. Para ele, as pessoas estão sub valorizando as tradições do estado. Com todos aqueles clichês sobre o “não pertencimento” e que “ninguém faz nada pelos paulistanos”, ele disse que não é um separatista, mas que os imigrantes deveriam voltar para as suas cidades de origens, entre um monte de bobagem e outra.

A primeira coisa que me passou pela cabeça foi  “esse piá é índio?”. Nós, brasileiros, somos todos imigrantes. Viemos enganados da Europa e da Ásia, à força da África, refugiados de todo o lugar. Se todo mundo for “voltar de onde veio”, eu tenho que me repartir em quatro. Alguns amigos meus vão deixar um braço em São Paulo, uma Perna no Paraná e seguir feito saci para a Paraíba.

Eu queria entender o que faz uma pessoa se considerar um paulistano “puro”. O que faz de um piá neto de italianos achar que merece mais o titulo de paulistano (nossa, que título importante) do que o filho de pais nordestinos, que provavelmente vem de uma família com mais gerações de Brasil. Sim, é tudo Brasil, e São Paulo não forma um “povo” homogêneo, muito menos uma Nação digna de ser desmembrada e formar um novo Estado.

Uma Nação é formada por língua, cultura e religião. Tentem, por um minuto, pensar qual seria o retrato da “nação” de São Paulo. Segundo, uma Nação, para poder ser chamada de secessionista, tem que sofrer perseguição, tem que ter problemas enormes com o Estado, e não ser fruto de um pessoal que mais chora do que faz alguma reivindicação de alguma importância política. Terceiro, essas pessoas já saíram da cidade de São Paulo? Se saírem, vão querer separar São Paulo de Barretos, de Santos, de Ourinhos. Não existe cultura homogênea nesse país.

O motivo dos CTNs e das leis atuais existirem são pessoas manés o suficiente para se acharem superiores aos outros, pessoas que não conhecem a história de seu estado, do seu país e, por isso, criam preconceitos idiotas (redundância, já que não existe preconceito que não seja idiota).  Infelizmente essa lei chegou atrasada para alguns filhinhos de papai criados no leite com ovomaltino. Espero que a próxima geração saiba usar a liberdade que tem para protestar por coisas que realmente valham a pena.

Projetos inacabados

5 de julho de 2010 by

Se tem uma coisa que eu sou a melhor no mundo é em fazer projetos e executa-los. Parcialmente. Eu sempre desisto na metade de tudo o que eu faço, é incrível.

Tomar banho, por exemplo: eu arrumo minhas coisas, levo até o banheiro, volto para  meu quarto para pegar alguma coisa x (um esfoliante, sabonete) e percebo que não limpo a minha pele faz uma semana. Paro, começo a limpar e lembro do banho. Vou para o banho com metade da minha pele por limpar. Quando eu saio, lembro que preciso terminar a limpeza de pele, mas lembro também que tenho que dar comida para meus coelhos. Depois de mimar meus bichinhos, lembro da pele de volta, mas daí não tem mais nada a ver, eu ia ter que voltar a limpar desde o começo. Nossa, e a Coréia do Norte?

Assistir filmes é uma arte que eu desenvolvi desde criança. Eu vejo 20 minutos, pauso, como alguma coisa, assito mais 10, não entendo uma expressão, procuro no google, daí lembro que preciso ver meus e-mails, o que lembra que eu tenho que ver meu orkut, e eis que o Chromed Bird atualiza, e alguém twitta alguma coisa que eu preciso comentar e esperar a resposta. Ah, sim, o filme. Mais 20 minutos e eu começo a pensar quem assiste cinema americano na Índia. Qual será o preço para ver um filme americano lá? Passa filme americano em cinema indiano, ou só filme nacional? Quem é esse cara que ta falando há 20 minutos? Ele não tem nada a ver com a história. Acabou. Não entendi.

Livros literários: desisti. Só livros de crônicas. Bentinho chega em casa, e sente que… Ah, peraí, Machado! 5 páginas para falar dos sentimentos dele? Eu sei que ele é maluco e a Capitu não traiu. Aliás, a Maria Fernanda Cândido não tem nada a ver com a Capitu que eu imaginei. Mas a Sophie, do Código da Vinci, é idêntica. Ok, onde isso vai dar? Reclamando da Capitu de novo, né? Nada a ver, só porque ela tava usando mangas de renda. Nossa, renda está super na moda. Acho que vou comprar um bolero de renda preta. Será que acho no mercado livre?

E é assim que eu desisto dos meus livros. E vão ficando coisas inacabadas, não por preguiça (só de vez em quando!), mas é que eu penso em muitas coisas ao mesmo tempo, me confunde. Talvez seja a internet, talvez seja muito café. Talvez seja transtorno de atenção. Mas quem faz uma coisa só e presta atenção nisso é muito limitado.

Dois passos para o inferno

20 de junho de 2010 by

Nesse momento eu estou muito brava. O Brasil acabou de ganhar da Costa do Marfim, num jogo até bom, uma coisa atípica para esta copa. O problema é que, na última semana, eu não durmo, não trabalho, não pesquiso, não ando calma nas ruas. Eu estou com mania de perseguição de vuvuzelas.
Vuvuzela é uma coisa que eu apaguei das minhas memórias de todas as copas. Na verdade, durante todas as copas da minha vida, eu nem sabia que a cornetona se chamava vuvuzela. Eu sempre chamei de cornetona, mas não lembrava da merda que dava coom várias pessoas tocando essa bosta ao mesmo tempo. Acho que desde que eu caí de cabeça, eu pensei que nada poderia ser pior numa copa. Nem os jogos de madrugada de 2002.
A corneta do diabo é mais barata que uma camisa, que uma peruca, do que uma bandeira, o que faz com que o patriotismo repentino que vem com a copa do mundo tenha a sua expressão máxima em soprar um berrante de mentira. Com o acesso à vuvuzela mais fácil do que ao crack, as pessoas se sentem livre para usa-la em qualquer ocasião.
Eu ando na rua e tem vuvuzela. Eu estudo e tem vuvuzela. Eu vou ao banheiro e tem vuvuzela. Eu juro que ontem, indo dormir às 2 da manhã, eu deitei na cama e não conseguia pegar no sono porque tinha alguém tocando essa merda. Cacete, duas da manhã! O cara poderia estar fazendo qualquer coisa: comendo, bebendo, dormindo, dirigindo igual um retardado, transando, usando crack, mas não: queria ser a vuvuzela solitária da madrugada.
Eu moro do lado de uma loja de som. E eles comemoram o fim de cada partida tocando uma música tecno e tocando vuvuzelas. É como uma versão remix do inferno. Se eu olhar pela janela do meu quarto, tenho um ótimo motivo para querer ir para o céu. Se o inferno for uma mistura de tecno pobre + gente feia + vuvuzela, eu prefiro passar minha vida na igreja. O problema é que já ouvi gente falar que estava no culto e ouvindo essas cornetas, ou seja: Deus resolveu não voltar para a Terra, mas limpar nossos pecados nos punindo com uma coisa pior que buzinas de carro.
Eu tenho quase certeza que os que agora tocam vuvuzelas pelas ruas são os mesmos que, há um mês atrás, xingavam a escalação do Dunga. Esqueceram de como brigaram com a seleção e agora se sentem patriotas e compartilhando com a felicidade que emana da “mãe África” fazendo um barulho de peido em um tubo de plástico. Bom, logo isso acaba, e eu tenho quatro anos para bloquear isso da minha mente e torcer para tornarem isso ilegal.

Quero ver vocês comemorarem com berrante em 2014!!!

O pior dia de todos – 2 ou por que larguei a yoga

16 de junho de 2010 by

Por algum motivo, os eletricistas não acham que vale a pena ir na casa dos outros, e por isso cobram visita. Entre 50 e 100 reais só pra se deslocarem até o lugar que precisa da presença deles. Por esse preço eu quero que só de entrar em algum lugar os interruptores funcionem, as tomadas estejam na voltagem correta e o linux leia arquivos .mdb. E não vou pagar nada a parte: nem a troca de fios, fusíveis, nem a colocação de tomadas novas. Por esse preço eu quero que o Tom Cruise venha trocar a esquadria.

Eu consegui achar um tio que não ia cobrar visita, porque estava num prédio do lado do meu trabalho, segundo a esposa dele. O único detalhe era que a esposa não conseguia falar com ele, eu não conseguia falar com ele, nem a morte “herself” conseguia falar com ele. Sim, eu sei que a morte queria falar com ele, afinal ele tava mexendo com eletricidade, e desde pequena, eu ouvia minha mãe falar que choque mata.

Eu desisti e saí mais cedo sem o consentimento do meu chefe (entrei 10 minutos depois e saí 10 minutos antes, o novo conceito de rebeldia). O problema é que o Cabral-Osório só passa de 10 em 10 minutos, com um adicional de mais 10 minutos, já que deve existir apenas um ônibus para fazer essa linha em todo o mundo.

Estava eu na fila, pensando em quantos ônibus Cabral-Osório existem no mundo, e se são todos amarelinhos, um velho cai no chão do meu lado. Caiu durinho, igualzinho quando alguém desmaiava no Chapolin Colorado. “Taquepario, o velho morreu. E se fosse eu?”. Quando eu concluí esse pensamento, segurei no braço da moça atrás de mim e disse que eu ia entrar em pânico. Não entrei, para evitar a vergonha pública, e antes da ambulância chegar para o velhinho, que não estava morto, chegou DOIS Cabral-Osório. Nunca uma teoria minha desmoronou tão rapidamente. E nunca uma ambulância demorou tanto e curitibanos foram tão solícitos – não comigo, com o velhinho, que não tava morrendo de frescurites.

Já no ônibus, não se falava outras coisas que não o que aconteceu com o Seu Antônio (o velhinho disse o nome), em detalhes. Eu sentia que eu ficava mole no banco com menos apio de todos (o do corredor, onde tem o último banco duplo e o primeiro banco para egoístas). Com o trânsito dessa cidade não colaborando, liguei para a minha mãe me pegar no meio do caminho e me levar para a yoga. A conversa foi mais ou menos essa:

-Alô?

-Mãe?

-Alô?

-Oi, mãe!

-Oi!

-Mãe, você pode…

-Oi filha!

-Oi mãe… mãe, será que v…

-Oi filha!

-Mãe, escuta!

Nesse momento estava todo mundo me ouvindo gritar no telefone com a minha mãe. Consegui pedir, e finalmente, ela ia me encontrar no terminal Cabral, o único que se comunica com todos os bairros de Curitiba, e por isso, o com mais gente.

Esperando na frente do terminal, fui ligar para os meus pais e para um motoqueiro na minha frente. “Pronto, acabou de ferrar o meu dia, vai me assaltar”. Por mais bizarro que possa parecer, Krishna se compadeceu da minha situação (poxa, tudo isso por uma aula de yoga). O cara queria uma informação (sério, foi um milagre. Alguém no mundo já deu informação para um motoboy?). Uma informação que eu não lembrava como dar. Eu rtenho um GPS que é meu guia espiritual, eu não sei chegar até a padaria sem ele. E o tio queria uma coisa obvia. Falei o básico e pedi para ele voltar a perguntar depois do que eu lembrava.

Meus pais chegaram, trânsito, trânsito, trânsito, pus roupa em 10 segundos e fui para a yoga. Depois da aula, a professora deu um papel para cada aluno, cada um com um princípio do yoga para estudar. O meu era conservação de energia. Ela disse “talvez você tivesse chego aqui no mesmo horário, sem precisar se desgastar tanto assim”. Nesse momento, milhões de palavrões ecoaram na minha cabeça. A Dercy Gonçalves deve ter soprado alguma coisa, porque eu pensei em palavrões que eu nem conhecia.

Para melhorar meu dia, minha professora ainda falou que eu estava errada quanto ao pagamento, e teria que pagar as aulas que eu fiz no mês, mesmo se não fosse mais fazer yoga. Não paguei e não vou mais fazer aquilo lá. Putz, a yoga foi a cobertura e a cereja do bolo do pior dia de todos.

Tudo o que eu conseguia pensar é que meu dia foi praticamente igual a esse:

(detalhe para os 2:20 do vídeo)