Tudo no meu Sul

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Oi, este texto é enorme e você não vai ler inteiro. Se ler, vai rir da minha cara. Então, nem leia.

 

Eu resolvi, na metade da faculdade, não ganhar dinheiro e viver de pesquisa. Depois do TCC entregue, respirei fundo e resolvi fazer mestrado, para garantir que eu nunca fique rica. Todas as merdas de 2010 me levaram para que eu me dedicasse ao máximo para a Federal do Rio Grande do Sul, um dos grandes centros de pesquisa emPolítica Internacional do país.

Como a primeira fase da seleção era uma prova em Porto Alegre, e logo em seguida a entrevista, eu programei minha viagem toda certinha para os 5 dias, no máximo, que eu ficaria lá. Fui com o orçamento ultra apertado, mas valia a pena – eu ia passar na seleção, com certeza.

Minha relação com aeroportos é bem complicada. Acho que Hórus (deus dos céus) mão vai com a minha cara, por que sempre dá alguma coisa errada. Fico igual uma maluca atrás de qual portão eu realmente embarco, com a moça falando “voo número tal embarque portão 5”, com o telão mostrando que o embarque é no portão 8, e acabo embarcando no portão 3, o pior do aeroporto de Curitiba, por que tem que pegar ônibus pra ir para o avião, que demora meia hora. Além daquele povo que sabe-se lá o que está fazendo, e as gurias ficam anunciando “senhor fulano, última chamada para embarque”.

Desta vez foi tudo bem, o que me deixou com medo. Se foi tudo bem no aeroporto, alguma coisa me aguarda. Vocês, amigos de fórum, sabiam que a webjet cobra pelo serviço de bordo? Pois é, fiquei sem comer.

Cheguei no Hotel que eu tinha reservado. Como ele era descrito em todos os sites: com 20 quartos, ambiente aconchegante, similar a uma pousada. Cheguei, falei com a velhinha simpática da recepção, que me perguntou se eu ia ficar sozinha no quarto. Achei estranho, mais estranho ainda ter uma tabela com o preço das horas na parede. Achando que eu estava no lugar mais latino do mundo, com paredes rosa, chão vermelho e lustres coloridos, subi as escadas com medo, até chegar ao meu quarto. Amigos, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a música do Zezé di Camargo e Luciano: um abajur cor de carne, um lençol azul, cortinas de seda E EU QUERENDO MORRER. Coloquei a mão por dentro da manga da blusa pra pegar o telefone, que na verdade era apenas um interfone. As paredes e a cama cobertas até a altura da cintura com veludo vermelho, aquela cama simplesmente me dava pavor, e todo o medo de não passar no mestrado culminaram em um choro sem precedentes até então. O nojo que eu senti naquele lugar, pensando que tipo de gente iria até lá pra fazer alguma coisa, me deixava tonta.

“Vou ligar para alguém, vou ligar para o…” não me permiti terminar esse pensamento. Que guria corre para o ex namorado no primeiro sinal de perigo? Pensando como uma boa weberiana, lembrei da Chris, que tinha família lá e contei meu desespero para ela e para a mãe dela, que me indicaram um parente que poderia me ajudar. Meus créditos acabaram, para a alegria geral da nação. Como a Tim tem algumas coisas boas, como a internet que algumas vezes funciona, achei um hotel de verdade com o mesmo preço. Juntei minhas coisas, cheguei ainda chorando na recepção, onde a velhinha viu meu pavor e devolveu o dinheiro da diária, e saí atrás de créditos para o meu celular, pra conseguir me comunicar com o mundo.

Cheguei no mercadinho ao lado do hotel chorando, pedi créditos para o dono e contei do pavor do hotel. O senhor perguntou se me estupraram lá. Pensei que em alguma escala bizarra de Maria do Bairro, eu tive sorte. Não, não me estupraram, nem dirigiram a palavra a mim, acho que graças a Deus. Mas o tio não conseguiu botar créditos, e àquela altura eu já estava chorando e pensando que vida eu escolhi para mim, quando saí com as minhas malas na chuva atrás de um táxi. Entrei no táxi ainda chorando, contei meu drama, falei do outro hotel e perguntei “é um hotel de verdade, né? Não é um outro puteiro?” “não te preocupa, tchê, é um hotel”. Eu falei exatamente nessas palavras, quando me acalmei, finalmente, sabendo que não iam tentar me estuprar no meio da noite.

Peguei o último quarto de solteiro disponível e subi de elevador, que lembrava o do Hotel Stanley (do Filme O Iluminado). O corredor também parecia com o corredor do filme, com papel de parede estranho, lustres circulares com luzes piscantes, com o teto um pouco mofado. Sem gêmeas no corredor, entrei no quarto com a certeza que eu iria morrer de rinite (ou de fome), liguei a cobrar para os meus pais que achavam que eu estava morta. Tirando meu nojinho do cobertor do hotel, até que consegui dormir bem, eu só pensava “eu poderia estar morta em um puteiro”.

Como qualquer pessoa normal, eu amo cafés da manhã de hotéis. Nunca sofri tamanha decepção. O hotel disponibilizava bilhões de tipo de pão (uhul), queijo, presunto, e uma coisas nojentas, como ovo. Sério, se você come ovo frito no café da manhã, morrer de ataque cardíaco é o mínimo que você merece. Não estava ligando muito, afinal, eu ia fazer a prova e ia passar. De lá eu já fui pra UFRGS, onde fiquei quase uma hora no ônibus. Andei o campus todo, onde só se falava do jogo do Inter na terça.

Fiz a prova, achei absurdamente fácil, escrevi quatro folhas frente e verso, saí de lá com a mão assada, mas com a certeza que fiz a melhor prova o possível, e que eu passaria por que era obvio que eu tinha ido bem. Entrei no ônibus toda sorridente, mandando mensagens para as minhas amigas falando “estou viva, não estou num puteiro e acho que fui bem na prova”. Sim, eu coloquei créditos no meu celular, sem choro.

No outro dia, fui naquele café da manhã mais ou menos e um velho nojento ficou olhando para a minha cara. “Legal, ele deve frequentar aquele outro hotel”, pensei. Quando fui falar com o recepcionista, o velho tarado simplesmente tentou puxar assunto comigo. “Tem compromisso agora?” – sério, o que passa na cabeça de um maluco desses? Que eu vou dizer “não, ta afim de fazer alguma”? Falei “tenho” da forma mais mau educada o possível, deixando um senhor e o filho dele, que esperavam pelo pavoroso elevador chegar. Depois de explicar o motivo da minha resposta, eles falaram pra eu não subir para o meu quarto sozinha nunca, pedir sempre pra alguém do staff do hotel ir comigo. “Ótimo, não ta tão melhor que o puteiro”, eu pensei.

Depois fui fazer turismo por Porto Alegre, e vi que o google maps inverteu as direções de todos os caminhos que eu tracei. Não teve um lugar que eu tenha ido sem me perder, e cada pessoa que eu pedia informação falava uma coisa diferente. Consegui chegar aos lugares que eu queria, pelo menos, e fiquei com a testa e o couro cabeludo queimados de sol, que beleza.

Voltei para o hotel pra apertar Reload no celular o resto do fim da tarde. Às 19h saiu o resultado, com um detalhe: meu celular só mostrava metade da página, ou seja, até o G. Desci correndo pro lobby do hotel, onde veio a alegria e felicidade em saber que eu NÃO passei na seleção. Mandei mensagem os meus amigos, de novo, falando que eu não acreditava. Recebi várias respostas no estilo “tem certeza? Não acredito!”. Pois é, não passei! Resolvi juntar as minhas coisas e ir para casa, por que se é pra chorar, que seja na minha cama.

Quando fui acertar com o hotel descobri que depois das 18h se pagava uma diária inteira. Tentei de todo o jeito pedir um desconto, sem chances. Pensei em chamar a gerência, mas o último ônibus pra Curitiba tava quase saindo e era só o que me faltava, ter que ficar em Porto Alegre mais um dia. Como o Inter perdeu, as ruas estavam tomadas por gremistas que, grandes filhos de pessoas que freqüentavam o hotel que eu tinha reservado, buzinavam, gritavam, andavam no meio das ruas. Ótimo.

A guria que estava na minha frente na fila pra comprar passagem disse que ia precisar pagar excesso, e começou a discriminar as vinte (VINTE) malas dela para o único atendente da viação, e estava quase na hora do ônibus sair. Consegui comprar a passagem e entrar no ônibus, pelo menos.

No que sentei, uma velhinha começou a mexer em umas sacolas de plástico. Eu, que já estava até as tampas com toda a situação, não agüentava ouvir o barulho dela. A velhinha que sentou do meu lado era tão curitibana que não pediu nem licença para sentar, nem sequer deu um sorriso quando eu falei boa noite pra ela. Eis que o homem sentado do outro lado do corredor começa a ver um filme sem fones de ouvido. Querendo levantar e mandar todos calarem a boca, fui atrás dos meus fones, pra pelo menos não ouvir aquele povo estressante. Virei minha bolsa, e nada deles. Saí de porto Alegre rezando pra que um raio, um corvo, qualquer coisa acontecesse ao cara que tava vendo filme, enquanto ouvia todos os barulhos de tiros e explosões do filme. Em uma hora, acabou a bateria do notebook dele. Eu, achando que ia ficar em paz, tive que agüentar uma pessoa comer três (sim eu contei) pacotes de ruffles com a boca aberta.

Comecei a tentar abstrair e pensar na merda dos últimos dias e na merda que a minha vida está, e parti para um choro sem fim, que foi entre as 21 e a 1 da manhã, com o cara da ruffles me assistindo enquanto fazia questão de fazer o máximo de barulho o possível. Não era possível eu me ferrar tanto em tão pouco tempo, e simplesmente não tem nada de bom acontecendo em campo algum da minha vida. Dormi e acordei já em Curitiba.

Quando meu pai foi me receber na rodoviária, eu não sei de onde tirei forças para não xingar, acho que foi o sono. Segue a nossa conversa:

-Tudo certo em Porto Alegre?

“Não passei no mestrado e você ainda vem com essa pergunta infeliz, só por que você não quer que eu saia de Curitiba”, eu pensei.

-Tudo.

-Que bom, e que lugares você conheceu lá?

“Oi? Dá pra falar pelo menos um ‘que pena que você não passou’? Nem ‘você logo consegue em outro lugar’? Falsidade pelo menos nesse momento me ajudaria”.

-Pai, acabei de acordar, não to raciocinando direito, depois a gente conversa.

Não preciso falar que ele não fala comigo desde então. Pedir um pouco de falsidade pra fazer com que eu me sinta melhor é exigir muito? Pelo menos disfarça que ficou triste com a minha derrota.

Cheguei em casa as 9 e dormi até as 14h, virei o dia no computador, tentando botar o pensamento em ordem e recebendo algum carinho dos lindos dos meus amigos, que agora só me chamam de Maria do Bairro. Estou esperando a segunda fase da novela, mas acho mais provável que a Soraya me encha de porrada e me mate antes.


6 Respostas to “Tudo no meu Sul”

  1. Marceli Says:

    CARA, vou contratar um Taylor pra vc.

    sério, conseguiu se foder em viagens mais que eu.

    hUIAHHUAuAIhU que aventura. aposto que deve estar cheia de amor por POA por agora.

    =***

  2. Juan Says:

    confesso que gostei do seu texto… realmente que pena que você não passou, mas há outros centros importantes para política internacional que talvez você não devesse desconsiderar… eu levanto uma hipótese, dois estados produzem estadistas, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, há algo nessas duas culturas, que induzemisso. Talvez não fosse os pampas, mas a estrada real que você devesse considerar… é apenas uma sugestão…
    boas festas de fim de ano, um abraço!!
    ps.: pai e mãe nunca vão querer que os filhos saiam de perto… mesmo que você tenha 50 anos… =)

  3. Renata Says:

    Garota… Caí aqui de paraquedas mas valeu.
    Devias pensar em mudar de profissão.
    Vc escreve mto bem, PARABÉNS!
    ADOREI SUA CRÔNICA.
    Boa Sorte em outras provas e novas viagens.
    FELIZ NATAL E 2011 CHEIO DE REALIZAÇÕES.

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