O pior dia de todos – 2 ou por que larguei a yoga

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Por algum motivo, os eletricistas não acham que vale a pena ir na casa dos outros, e por isso cobram visita. Entre 50 e 100 reais só pra se deslocarem até o lugar que precisa da presença deles. Por esse preço eu quero que só de entrar em algum lugar os interruptores funcionem, as tomadas estejam na voltagem correta e o linux leia arquivos .mdb. E não vou pagar nada a parte: nem a troca de fios, fusíveis, nem a colocação de tomadas novas. Por esse preço eu quero que o Tom Cruise venha trocar a esquadria.

Eu consegui achar um tio que não ia cobrar visita, porque estava num prédio do lado do meu trabalho, segundo a esposa dele. O único detalhe era que a esposa não conseguia falar com ele, eu não conseguia falar com ele, nem a morte “herself” conseguia falar com ele. Sim, eu sei que a morte queria falar com ele, afinal ele tava mexendo com eletricidade, e desde pequena, eu ouvia minha mãe falar que choque mata.

Eu desisti e saí mais cedo sem o consentimento do meu chefe (entrei 10 minutos depois e saí 10 minutos antes, o novo conceito de rebeldia). O problema é que o Cabral-Osório só passa de 10 em 10 minutos, com um adicional de mais 10 minutos, já que deve existir apenas um ônibus para fazer essa linha em todo o mundo.

Estava eu na fila, pensando em quantos ônibus Cabral-Osório existem no mundo, e se são todos amarelinhos, um velho cai no chão do meu lado. Caiu durinho, igualzinho quando alguém desmaiava no Chapolin Colorado. “Taquepario, o velho morreu. E se fosse eu?”. Quando eu concluí esse pensamento, segurei no braço da moça atrás de mim e disse que eu ia entrar em pânico. Não entrei, para evitar a vergonha pública, e antes da ambulância chegar para o velhinho, que não estava morto, chegou DOIS Cabral-Osório. Nunca uma teoria minha desmoronou tão rapidamente. E nunca uma ambulância demorou tanto e curitibanos foram tão solícitos – não comigo, com o velhinho, que não tava morrendo de frescurites.

Já no ônibus, não se falava outras coisas que não o que aconteceu com o Seu Antônio (o velhinho disse o nome), em detalhes. Eu sentia que eu ficava mole no banco com menos apio de todos (o do corredor, onde tem o último banco duplo e o primeiro banco para egoístas). Com o trânsito dessa cidade não colaborando, liguei para a minha mãe me pegar no meio do caminho e me levar para a yoga. A conversa foi mais ou menos essa:

-Alô?

-Mãe?

-Alô?

-Oi, mãe!

-Oi!

-Mãe, você pode…

-Oi filha!

-Oi mãe… mãe, será que v…

-Oi filha!

-Mãe, escuta!

Nesse momento estava todo mundo me ouvindo gritar no telefone com a minha mãe. Consegui pedir, e finalmente, ela ia me encontrar no terminal Cabral, o único que se comunica com todos os bairros de Curitiba, e por isso, o com mais gente.

Esperando na frente do terminal, fui ligar para os meus pais e para um motoqueiro na minha frente. “Pronto, acabou de ferrar o meu dia, vai me assaltar”. Por mais bizarro que possa parecer, Krishna se compadeceu da minha situação (poxa, tudo isso por uma aula de yoga). O cara queria uma informação (sério, foi um milagre. Alguém no mundo já deu informação para um motoboy?). Uma informação que eu não lembrava como dar. Eu rtenho um GPS que é meu guia espiritual, eu não sei chegar até a padaria sem ele. E o tio queria uma coisa obvia. Falei o básico e pedi para ele voltar a perguntar depois do que eu lembrava.

Meus pais chegaram, trânsito, trânsito, trânsito, pus roupa em 10 segundos e fui para a yoga. Depois da aula, a professora deu um papel para cada aluno, cada um com um princípio do yoga para estudar. O meu era conservação de energia. Ela disse “talvez você tivesse chego aqui no mesmo horário, sem precisar se desgastar tanto assim”. Nesse momento, milhões de palavrões ecoaram na minha cabeça. A Dercy Gonçalves deve ter soprado alguma coisa, porque eu pensei em palavrões que eu nem conhecia.

Para melhorar meu dia, minha professora ainda falou que eu estava errada quanto ao pagamento, e teria que pagar as aulas que eu fiz no mês, mesmo se não fosse mais fazer yoga. Não paguei e não vou mais fazer aquilo lá. Putz, a yoga foi a cobertura e a cereja do bolo do pior dia de todos.

Tudo o que eu conseguia pensar é que meu dia foi praticamente igual a esse:

(detalhe para os 2:20 do vídeo)

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